sábado, 26 de novembro de 2011

Devaneios do Ranzinza por Roberto Prado


Roberto Prado, 49 anos Santos, São Paulo.

Publicou dois livros, é funcionário público. Talentoso escritor, irá escrever aos sábados 10 horas da manhã, no Folhetim Cultural com reprise nas terças ás 20 horas. Pelo Folhetim ainda escreverá uma vez ao mês no Chá das 5.
Blog do Roberto Prado: http://blogdonemesis.blogspot.com/
E-mail do Folhetim Cultural: folhetimcultural@hotmail.com
E-mail: rpjbarbosa@fazenda.sp.gov.br


EVOLUÇÃO




Parte 1ª

Sons de trovoada, raios, terremoto, deslizamento, um caos total.
Sons de chuva
Água correndo

Voz de embargada – Mas que lama é essa? Cadê meus pés? Onde estou? Por que me sinto assim tão estranho? Preciso de um espelho... – som de alguma coisa rastejando – Acho que não acharei nenhum espelho por aqui, vou ter que me contentar com uma poça d’água. – MÚSICA DRAMÁTICA – Não, não, não... Cheguei nesse mundo na hora errada! Ainda sou um verme rastejante, levarei milhões de anos para me tornar um macaco, outros tantos bilhões para me torna rum homem... – CHORO CONVULSIVO – Não...

Som de uma ave de rapina

Era só o que me faltava, vou ser devorado com menos de um minuto de vida. Espero que na próxima... – interrompido pela ave que o come.

Som em fade-out da ave se afastando



2ª Parte

Voz – Não acredito, acabei de ser devorado por uma ave e voltei como filhote dela. Acho que minha reencarnação foi rápida porque não tem ninguém na fila. Terei que pagar meus pecados. Mas que pecados se ainda não tive a oportunidade de errar? ...

- Mas o que é isso? Uma outra ave maior ainda que a primeira? Socor...


[interrompido pela ave que o come]
[som em fade-out da ave se afastando]


3ª Parte

[um milhão de anos depois]

Voz – Aqui está tudo muito escuro e sossegado para o meu gosto (som de campainha) Ok, ok, eu sei que ainda não tive tempo para desenvolver meu gosto, mas sei quando algo está errado. Nessa escuridão não consigo nem me imaginar como sou, nem sei se já ando ou se ainda rastejo. (sou de algo rastejando) diabos, ainda não nasci com pernas... Maldita evolução que atrapalha as minhas vindas... Vamos lá (som de mãos tateando uma parede) vamos lá, parece que estou conseguindo, onde esse corredor me levará? (som de mãos tateando uma parede) vamos láááááááááá (eco)

(som de algo estatelando no chão)

Voz – Fui vítima do primeiro eclipse solar de minha vida!


4ª Parte
(muito tempos depois na Idade Média, no quintal da casa de Brueghel)
[som de flecha atingindo alguma coisa]


Voz – Arrgghhh! Puxa vida, fui nascer exatamente agora, no meio de uma competição de tiro ao alvo com arco e flecha. Mas que dor é essa? Algo me atingiu no exato momento em que abria os olhos para ver onde estava. A dor é intensa, sinto que não vou agüentar muito tempo. Quem é esse cara aí embaixo? Será que sou eu? E se sou eu, então quer dizer que morri com a flechada e minha alma está deixando meu corpo agora. Espere, estou começando a enxergar alguma coisa, minha visão está ficando mais clara.

[grito]

- Nããããoooooooo!!! Eu sou o verme da maçã!



5ª Parte

[24 horas depois]


Voz – Não é possível! Escuro outra vez? Terei nascido cego dessa vez? Cego mas com membros desenvolvidos para compensar? Pernas, braços, cabeça sobre um pescoço flexível, dedos, dedos nas mãos, dedos nos pés, que a bem da verdade não seu para o que serve... Mas que barulho é esse? Ótimo! Não nasci surdo! (som de algo líquido se mexendo) mas que diabos é isso afinal? Se ao menos pudesse entender como vim parar aqui... Tudo o que me lembro é de uma flecha vindo em minha direção, um grito – o meu grito – e essa maldita escuridão outra vez.(som de algo líquido se mexendo) Oh! Não, não nããããããão (eco) Como isso pode estar acontecendo comigo? Alguém comeu aquela maçã, e a mação foi digerida comigo dentro, e agora, agora, agora, sou parte da flora intestinal! Não, agora eu vejo uma luz se aproximando... Nãããããão

(som de algo líquido se mexendo)


6ª Parte
[24 segundos depois] – [choro de criança]

Voz - Nasci, nasci...puxa vida, mas que pesadelo essa tal de evolução! Quem são esses caras? Que roupas engraçadas. Quem é essa aí? Não sei por que, mas gostei dela. Puxa como está quentinho aqui. O que é isso? Huuummmm...delícia esse líquido branco e quente. Agora sim, parece que desta vez estou no topo da cadeia alimentar. Finalmente posso começar a minha missão.


7ª Parte
[31 anos depois]

Voz – Blahhhhhg! Cá estou eu de volta a esse globinho azul cheio de água, lama e frio. Na minha última encarnação achei que já voltaria como homem, mas qual não foi minha surpresa ao descobrir que tinha vindo como lactobacilo vivo... E pensar que já estava todo entusiasmado com aquele pessoal vestido de branco, aquele líquido branco e quente, que descobri ser leite de vaca... Terminei minha vida poucas horas após ter me transformado em iogurte. E agora aqui estou guardado nesse tubo de ensaio esperando para ser inseminado em algum útero. Mas não me desespero, não, não. Nunca estive tão próximo de me tornar um ser humano. Estou louco para saber qual é a sensação de ter braços e pernas... Aliás, tão logo nasça e cresça vou procurar um psiquiatra e estudar profundamente essa minha obsessão por esses membros. (Som de porta metálica abrindo) Opa! Opa, opa! Estão me retirando do freezer, estão me retirando do laboratório, vou ser inseminado, agora chegou a minha vez. Vida ai vou eu!!!

(Som de vidro caindo no chão)



8ª Parte
Quatro horas, quinze minutos e trinta décimos depois.

Voz – Tenho certeza que sou um cara azarado. Peraí, cara ou mina? Nem nasci ainda, como vou saber?
      Lá vou eu pra fila de novo, pelo menos agora me prometeram nascer com mãos e pés. Mas a fila tá tão grande. Deixa eu ver meu número...puta merda eu sou o número 126.276.344.987 da fila. Quanto tempo será que vai levar para que eu reencarne?
      Enquanto isso vou ficar por aqui, lendo um livro, jogando conversa fora, fazendo alguma coisa pra matar o tempo.

[som de tempo passando]

      Puxa vida, ainda faltam 154.123.003.438. Será que não tem um jeito mais rápido de reencarnar? Passar na frente de alguém? Vou fazer uma ligação para uns conhecidos.

[som de telefone]

      Então, será que você não consegue me colocar nessa outra fila? Eu tenho urgência, não agüento esperar mais...


9ª Parte


[a pressa é inimiga da perfeição]


Voz - (com eco distante)– Ok, ok, ok, eu tentei exercer minha paciência... Só Deus sabe o que tenho passado nesses últimos milênios para vir prá esse globinho lamacento, complicado e cheio de má-vontade, mas chega! Ou volto agora ou não volto mais, não vou ficar flutuando nesse éter esperando chegar a minha vez de encarnar. (telefone sendo discado) – Alô! É da concorrência? Pois é sou eu... Sim ainda estou aqui... Depois de um curto pensar resolvi aceitar a sua proposta... Ótimo. Não vou precisar esperar na fila? Então está combinado... (gargalhada satânica) consegui vender minha pro diabo, e pro diabo com fila. Vida ai vou eu! Dessa vez é prá valer...

(gargalhada satânica em fade out)



10ª Parte

[som de crianças chorando]

Voz – Meu Deus, mas que vida é essa que eu estou levando? Que diabo de vida é essa? Mas é claro, só podia ser assim mesmo, é o que dá querer levar vantagem, agora tenho que pagar os pecados que nunca cometi.

[som de crianças chorando ainda]

Uesleison, Ferdinandison, Glaucélio, Berecilde, Gilmarlândia, Uótison, Oscarcélio, Acioneide, Marcelândia, parem já de chorar. Não agüento mais essa vida de pobre. Aí como eu me arrependo de furar a fila. Socorroooooooooo!!!



FIM
(gargalhada satânica)

No Café da Manhã com Poesia: Temos


Magno Oliveira é poeta, blogueiro e repórter cultural. Junto com o radialista Bruno Martins criou o Blog Folhetim Cultural e todo sábado escreverá No Café da Manhã com Poesia ás 07 da manhã, com reprise aos domingos ás 09 horas da manhã.
E-mail do blog: folhetimcultural@hotmail.com
Magno Oliveira no twitter: http://twitter.com/#!/oliveirasmagno
Telefone: 55 11 61903992
E-mail/ Orkut: oliveira_m_silva@hotmail.com




Poesia: Temos

Temos que parar só de sonhar
Sonhar é bom,
Mas sonhar e não realizar
É como se fosse uma festa sem música.

Temos que sempre lutar
Não podemos desistir
Temos que sempre acreditar
Para um dia vencer.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Chá das 5 com Regina Azevedo


A Programação do Folhetim no sábado a partir de fevereiro

Nestes últimos dias de Novembro entrarão as últimas postagens do ano, em Dezembro teremos a semana Roberto Prado, Ailton Sales, Regina Azevedo e Bruno Martins para brindar o sucesso do Folhetim Cultural este ano.
A partir de Fevereiro uma nova programação entrará no ar confira as novidades, de sábado.


Sábado

06 horas No café da manhã com poesia (Magno Oliveira)
09 horas linhas curtas (Opinião Magno Oliveira)
12 horas Sem papas na língua (Opinião Magno Oliveira)
15 horas Charge Amante Passional (Alexandre Costa)
17 horas Chá das 5 (Roberto Prado, Regina Azevedo, Ailton Sales e Bruno Martins)
20 horas Devaneios do Ranzinza (Roberto Prado)
22 horas A faixa do poeta das faixas (Cazuza)
23 horas Baú do Raulzito (Raul Seixas)

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Diário de uma adolescente: No fim é sempre assim



Bárbara Fernanda Cândido, cursou o ensino médio. Trabalhando em uma academia, detesta as futilidades das pessoas que idolatram somente a a aparência física. Seus Hobbies é ir ao cinema, exposições, conhecer lugares novos e a tranquilidade de uma boa chácara para esquecer do mundo. Escreve desde pequena, influenciada por mãe e professores que sempre observaram seu talento. Gosta de livros de ficção, suspense e romances.




Texto: No fim é sempre assim


"No final é sempre assim...
Lágrimas e muita dor.
Nenhuma despedida é tão boa.
E nenhuma alegria completa.
Comigo é sempre assim, as vezes batendo  com a cara na porta,
Enxergando tudo e percebendo...
Poxa, que idiota!
Meu coração estava tão fragmentado
E tudo antes tão destruído...
Quero respirar mais não posso (ainda?).
As faces da moeda que se abatem.
Amar é mais complexo e vasto do que pensei.
Trás determinadas coisas a tona que será que em algum momento eu quis?
Quando abro minha alma, amo.
No fim: valeu a pena fazer tudo isso?
Todas as coisas pelo qual vivo?
Respostas que sempre me negam ao fim.
Entretanto o oposto é o que completa, E quando percebo que caí,
E me machuquei
Levanto, escosto o que me feriu e parto sem olhar para trás.
Partir é bom Lava a mente e desencarrega os encargos de consciência;
Ir para algum lugar comum...
Com o que te espera no futuro.
Ah... o futuro é bom E as incertezas que o circundam também..."

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Devaneios do Ranzinza por Roberto Prado


Roberto Prado, 49 anos Santos, São Paulo.

Publicou dois livros, é funcionário público. Talentoso escritor, irá escrever aos sábados 10 horas da manhã, no Folhetim Cultural com reprise nas terças ás 20 horas. Pelo Folhetim ainda escreverá uma vez ao mês no Chá das 5.
Blog do Roberto Prado: http://blogdonemesis.blogspot.com/
E-mail do Folhetim Cultural: folhetimcultural@hotmail.com
E-mail: rpjbarbosa@fazenda.sp.gov.br

Hoje Acordei Sedento De Sangue



Acordei, estranhamente, sedento de sangue.

Fui à cozinha, bebi um copo d’água, que imediatamente cuspi, não consegui engoli-la. Realmente a sede era de sangue. Descobri que sou uma vitima do sentido figurado.

Sedento de sangue, estou com sede de sangue...

Como resolver isso?

O sol nasceu, abri as cortinas preocupado, trêmulo, medroso - e se o sol me queimasse? 

Claro que ele não me queimou, afinal não sou um vampiro - daqui vejo meu reflexo no espelho! -, sou só uma pessoa normal que, sabe-se lá por que, hoje acordou sedento de sangue.

O dia prometia ser quente, e na TV anunciava chuva para o fim da tarde.

Troquei-me, e saí a trabalhar ainda sedento de sangue e em jejum, nem mesmo a geléia de goiaba me atraiu....

Ao chegar ao escritório deparo com minha mesa cheia de papéis, espanto-me e fico indignado, pois ao sair ontem ela estava limpa.

Alguém fez serão e deixou o resto para mim!

Estou sedento de sangue quente e espesso e alguém me confunde com um abutre comedor de carniça!

Sento-me à mesa, meço a quantidade de papéis sobre ela, meus dentes rangem e, juro, sinto meus caninos crescerem...

Acordei sedento de sangue e estou começando a gostar disso.

Toca o interfone, e pelo calafrio na espinha, é a Dona Regina, minha chefe, chamando-me à sua sala. Sinto a sede aumentar seguida de um antegozo sobrenatural e uma saciedade pronta a realizar-se.

Levanto-me, olho o reflexo de meu rosto no cromado do grampeador e, sorrindo, percebo que meus caninos cresceram mesmo. Sigo em direção à sala da Dona Regina, faço toc-toc só de sacanagem, pois ela detesta isso, gosta de ser anunciada pela sua estagiária. Abro a porta antes que ela responda, encosto-me no batente e digo:

-Hoje acordei sedento de sangue...

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Sentires poético por Ianê Mello


Nascida no Rio de Janeiro (RJ). É educadora, pós-graduada em Pedagogia e Orientadora Educacional. Identificada com as diversas propostas em textos literários. Seus textos incluem contos, crônicas, aforismos, haicais e poesias. Alguns deles são publicados na internet, em sites, blogs e revistas eletrônicas. Escreveu um livro de contos  "Rocktales - Contos do Rock" com o escritor Beto Palaio, a ser publicado em breve.



Poemas, por Ianê Mello.

I

E eu ressurjo com o vento
por detrás das verdes folhagens
e me contorço em sons e vibrações
inaudíveis aos ouvidos humanos
e me refaço em cores sublimes
e me transporto em nuvens
de puro algodão...
Eu, que sou massa esférica
ponte que atravessa o rio
rio que corre
mar que não se navega
Eu que sou pura e simples
perdida na poeira cósmica
invisível e fantasmagórica
Súplica contida no espanto
Eu sou o Espanto
que corre na mármore frio
e que se abriga no gelo
Sou a ponta do iceberg
Sou branca e pálida
Me desfaço em sons
Me perco em tons
Sutilmente me alastro
Como quem fere
a própria carne
e sangra de dor.

II

E eu me converto em luz
na escuridão faz-se o grito
Arcaico , primitivo,
urro de transmutação
E eu me transformo em ar
Plano sobre os campos
leve, volátil, rarefeito
Alcanço novas esferas
Perene, tranquilo...
num reconhecimento íntimo
do âmago do ser
Ser complexo e simples
Dual e par
Sem sentido, desconexo
Harmônico e belo
Parideiro de emoções
Conflituoso e conflitante
Espasmo e contração
Prematuro na essência 
Renascido no amor
Ungido no pecado
Santo e profano
Misto de loucura e sanidade
Ladeado de saudade
Caçador de si.

III 

E eu transmuto a dor
num espasmo
Da sombra faz-se a luz
O corpo a gemer prazeres
Amarras soltas
aberta a prisão
Prisioneiro corpo
fragmentado pelos anos
pelos amores vãos
A alma flutua leve
no corpo liquefeito
Suores e fluidos
num rio caudaloso
prazeres de amar
cantares do amor
Num dedilhar de toques
sutis e intensos
Em sussurros inaudíveis
em gritos de gozo
ressurge a mulher
Alva e pura
como a água
que em seu corpo brota
Fonte fecunda
multifacetada... 
em virgens escondida
Esplendor de anunciação.

IV

E eu me enrodilho em pernas
em braços e amores
Me perco em sonhos, visões, carícias
E me trasporto  ao sublime
num ato de amor
Enredo por caminhos escondidos
por jardins florescentes
e céu de anil
Em nuvens de algodão me deito
extasiada e completa
Mulher que sou
Em meus olhos
rebrilham os seus
em arco-íris de paixão
Minha boca que se cala
num doce beijo
de mel e hortelã
Sou sua
e cada vez mais minha
Em você me reencontro
Inteira, intensa, verdadeira.