James Ellroy na FLIP


O escritor norte-americano James Ellroy protagonizou uma das mesas mais esperadas da Flip 2011 - Foto: Beto Lima 
Quando James Ellroy, postado na frente do palco, de pernas abertas, leu as primeiras palavras de um trecho de seu romance “Sangue errante”, o público desconfiou que aquela não seria uma leitura comum. E não foi. Apontando para o público, assumindo as vozes das personagens, o californiano de 63 anos abriu uma noite de gala da festa literária com uma grande performance.
Em seguida, quase deitado na cadeira, o maior escritor de romances policiais vivo, autor de cerca de 20 obras, começou a disparar as frases de impacto – muitas delas hilárias – que divertiriam a plateia por pouco mais de uma hora. Sobre os escritores não gostarem de aparições públicas: “eu adoro discursos. Eu sou louco pelo poder, é por isso que escrevo livros tão longos. Se eu fosse um compositor, seria Beethoven, se fosse um líder religioso, seria Deus”. O compositor alemão, aliás, é seu maior ídolo.

Grande apreciador de música clássica, o norte-americano diz conhecer e gostar do brasileiro Villa-Lobos. “Estou no Brasil, sou convidado de vocês, só vou lhes dizer coisas boas!”, brincou. O mesmo sobre o lutador Éder Jofre: “espero que alguém possa dizer a ele que o acho o máximo”.Se o assunto é a tradição da literatura policial, Ellroy tem clareza de seu lugar. Raymond Chandler, ele afirma, é um escritor menor, porque “retratava o homem que ele queria ser”. Já Dashiel Hammet, um autor maior do que o primeiro, porque “retratava o homem que ele temia ser”. A referência mais importante em literatura, porém, é o norte-americano Don DeLillo, cujo romance “Libra” serviu de inspiração para o seu “Tablóide Americano”. Sobre sua posição nessa tradição, Ellroy não titubeia: “sou maior que os outros, mas menor que DeLillo. Nenhum de nós jamais será, porém, tão grande Beethoven”.
Mais do que as brincadeiras ou as constantes referências à música clássica, o escritor descreveu a gênese de sua obra, que tem muito a ver com uma vida que poderia muito bem ser uma obra de ficção. Em 1958, quando Ellroy tinha 10 anos, sua mãe foi brutalmente assassinada, num crime que ficaria para sempre sem solução. “Dália negra”, um de seus livros adaptados para o cinema, foi a sua forma de lidar com a tragédia. Nele, o escritor relata o caso real de uma jovem que, como sua mãe, foi vítima de um crime brutal. “Usei a protagonista como um substituto para toda a dor e o luto que eu não pude expressar na época”. No submundo das cidades norte-americanas nas décadas de 1940 e 1950, em que “caras ruins acabam descobrindo Deus de uma forma ou de outra, auxiliados sempre por uma mulher”, o que Ellroy quer mostrar é a “consequência carnal dos atos imorais”.
Para encerrar em grande estilo, como começou, Ellroy pediu ao público que lhe perguntasse por que escrevia. Com a mesma voz poderosa, para delírio de todos os presentes na tenda dos autores Ellroy declamou de memória “In my craft or sullen art” (Em meu ofício ou arte taciturna), do poeta galês Dylan Thomas. Não poderia ter sido melhor.
Fonte: Portal IG
Foto: Portal UOL

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