"Estrela de Raul Seixas brilha até hoje", afirma diretor de filme sobre roqueiro


Walter Carvalho fala do documentário que estreia nesta sexta e do fascínio que o músico exerce nos jovens




















Foto: Divulgação
Raul Seixas: entrosamento com juventude


"Vou ser popular no mundo inteiro, artista de cinema ou cantor", escreveu Raul Seixas aos nove anos, em uma história em quadrinhos feita nos cadernos de escola. É uma das primeiras imagens de "Raul: O início, O Fim e o Meio", documentário que entra em cartaz nesta sexta-feira (23), cumprindo, de certa forma, a profecia do jovem compositor. 

Apesar do lançamento modesto (apenas 34 cópias), a expectativa é a de que as diversas gerações de fãs responsáveis por manter o mito vivo compareçam em massa. Raul é, hoje, o brasileiro morto que mais vende discos no país, cerca de 300 mil por ano, número bastante representativo para uma indústria fonográfica à beira do colapso.
Considerado o melhor diretor de fotografia do país, Walter Carvalho encabeça seu terceiro documentário, depois de "Janela da Alma" e "Moacir Arte Bruta". O cineasta já exibiu "Raul" no Festival do Rio, na Mostra de São Paulo e em pré-estreias em diversas cidades, inclusive Salvador, terra-natal do roqueiro. A receptividade, segundo ele, não decepcionou.
"A reação do público não poderia ter sido melhor", comemora Carvalho ao iG. "Não só reagem de forma positiva, até aplaudindo durante a exibição, como no final tem choro, comoção. Dos filmes que fiz até agora, esse é o que se comunica melhor. Se fosse outro artista, talvez não provocasse tanto. O Raul tem essa estrela que brilha até hoje, e pelo jeito vai continuar." 
O apelo do autor de "Maluco Beleza", "Metamorfose Ambulante" e "Sociedade Alternativa", verdadeiros hinos do rock nacional, permanece vivo entre aqueles que testemunharam o auge de sua carreira, mas encontra eco em jovens de todas as épocas – esse é o segredo, na opinião do diretor.
"Existe um entrosamento da juventude com a figura do Raul. A atitude contestadora que ele expôs no surgimento do rock no país provoca uma identificação com toda geração mais nova. Vi isso em casa: meus dois filhos tem diferença de 12 anos e descobriram Raul em momentos distintos da vida. Ouvia ele todo o tempo por causa disso."
A entrada de Walter Carvalho no projeto ocorreu em 2008, a convite da Paramount, quando ele trabalhava na montagem de "Budapeste". As gravações começaram em abril de 2009 e se estenderam até o ano seguinte, com entrevistas filmadas em São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Estados Unidos (onde estão três ex-mulheres e duas filhas de Raul) e na Suíça, lar do escritor e letrista Paulo Coelho.
A entrevista com Coelho, aliás, rende um dos melhores momentos do filme: quando começa a falar do ex-parceiro, o escritor é imediatamente importunado por uma mosca. A referência à música "Mosca na Sopa" é imediata.
Um dos maiores problemas da fase de pesquisa foi localizar imagens ao vivo de Raul inéditas, o alvo dos produtores. "Evitei usar ao máximo o que tinha na internet, porque supostamente já era muito conhecido", comenta o diretor, "foi um trabalho meio de ourives". 








Foto: George Magaraia
O diretor Walter Carvalho no Festival do Rio

Ao final do processo, estavam à disposição mais de 400 horas de material bruto e de arquivo. Carvalho gastou um ano e meio na edição, trabalhando até 10 horas por dia para encontrar uma linha narrativa. O primeiro corte tinha oito horas de duração, contra os 120 minutos atuais, a décima versão do filme.
Como muita coisa ficou de fora, uma possibilidade seria acomodar o conteúdo numa série de três programas para a televisão. Carvalho afirma que "nada está acertado", mas que o projeto de um produto diferente está sendo cogitado.
Para o cinema, o viés que o diretor encontrou foi combinar uma narrativa cronológica da vida privada de Raul com um panorama fragmentado de sua persona pública, nas manchetes e nas paradas. Não há, portanto, o compromisso de detalhar os discos do cantor – seus sucessos estão lá, mas não espere encontrar curiosidades das gravações, embora um ou outro fato inusitado tenha entrado na montagem final.
O objetivo era tentar descobrir a pessoa por trás da barba comprida e dos óculos escuros. A história começa em Salvador, com o fascínio de Raul por Elvis Presley e pelo rock 'n' roll, a mudança para o Rio, o estouro com "Let Me Sing, Let Me Sing", o sucesso e, o outro lado da moeda, o declínio rumo à morte, em 1989, aos 44 anos, vítima do alcoolismo e da diabetes, depois de uma turnê de retorno ao lado de Marcelo Nova. 










Foto: Divulgação
Raul desenha símbolo da sociedade alternativa na barriga, durante show no festival Phono 73


O filme não é uma homenagem ao Raul, mas sobre ele", explica Carvalho. Não são mascaradas, portanto, as intrigas amorosas (Raul se casou cinco vezes), vícios diversos (álcool, cocaína, éter) e a conturbada relação do cantor com o ocultismo.
Ao lado de Paulo Coelho, Raul se tornou discípulo de Aleister Crowley e, no Brasil, de Euclydes Lacerda, conhecido satanista. O documentário, inclusive, utiliza trechos de "Contatos Imediatos do Quarto Graal", filme raro em super-8 que mostra até sacríficio de animais. Raul e Paulo, no entanto, não teriam qualquer ligação com esses rituais.
A ambição de tentar abarcar todos os prismas de um personagem tão complexo deve satisfazer os espectadores ávidos por saber mais ou retomar a memória de Raul Seixas. O principal desafio agora é levar o público aos cinemas, já que, tradicionalmente, o gênero documentário atrai poucos espectadores no país.
"Infelizmente, essa fórmula [de atrair o público] ninguém sabe, acho que nem o Spielberg. O Raul tem uma estrela brilhando no horizonte e uma relação muito boa com o público, mas a gente só vai saber se deu certo quando estrear", afirma Carvalho.

Postagem: Natan Fellipe
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