Chá das 5 com Roberto Prado




Roberto Prado colabora com o Folhetim Cultural desde o início de 2011, Devaneios do Ranzinza aos sábados e terças feiras ás 20 horas e o Chá das 5 uma vez ao mês no sábado e quinta feira. Roberto Prado já publicou dois livros pela (CBJE) Câmara Brasileira de Jovens Escritores.





E-mail Folhetim Cultural : folhetimcultural@hotmail.com

Twitter Folhetim Cultural: http://twitter.com/#!/FolhetimCultura


Página no Facebook do Folhetim: http://www.facebook.com/pages/Folhetim-Cultural/306412726048485?sk=wall 

Facebook de Roberto Prado: http://www.facebook.com/profile.php?id=100002897813035

E-mail de Roberto Prado: rpjbarbosa@gmail.com

Comente sobre Roberto Prado no Twitter com a Hashtag: #RobertoPradoFolhetim





ALTEMAR

- Altemar, afaste-se! Não vou falar outra vez, afaste-se. Não vou escrever a história da sua vida, desista! E para com essa fumaça, você sabe o quanto ela me incomoda. E não bata a porta quando sair da sala.

Altemar sai e bate a porta. Desce as escadas fazendo barulho, derruba o vaso que estava num console, e pelo estrondo, tropeçou outra vez no tapete da sala. Pela janela ele vê as galinhas fugindo apavoradas pelo quintal, seguidas pelo cachorro que late aterrorizado.

- Altemar ainda vai me deixar louco! – murmura rindo de si mesmo.

Voltando o silêncioRigoberto retorna ao computador, pousa os dedos – os dois de cada mão, pois o resto mais atrapalha que ajuda – e tenta escrever. Onde estava mesmo? Relê o texto pela terceira vez.

Volta à janela, olha o maço de cigarros sobre a escrivaninha, ele está ali  cinco anos, desde que conhecera Altemar ele largou o vício pois os dois juntos era fumaça demais. Mas tinha vezes que o cigarro era uma ajuda bem-vinda. Rigoberto pegou um, mas logo se arrependeu e o jogou pela janela.

- Não fumarei hoje e nem nunca mais!

Desolado volta ao computador e recomeça a digitar a sua história encalhada a tantos dias. Escrever e deletar, escrever e deletar, escrever e deletar, realmente a história não avança uma sílaba sequer. O suor brota em sua testa, as folhas de papel grudam em suas mãos, os latidos do cachorro e o cacarejar histérico das galinhas não o ajudam a relaxar nem escrever. Rigoberto bate com as mãos na mesa e espalha sua coleção de lápis pelo chão.

- Ele não vai me convencer a pô-lo nessa história, não vai! Para seu espanto, uma galinha voa até a janela de seu escritório que fica localizado no sótão da velha casa. A galinácea está em pânico.

– Essa vai ficar sem botar uma semana, eu ainda vou acabar matando o Altemar... E acho que deveria ter continuado com o cigarro...

– Toby!, pára de latir desse jeito! Não deixe o Altemar te perturbar desse jeito! – grita com o cão.

Positivamente esse conto não sai mais. Outra história que vai, ou para o fundo da gaveta ou para a lata de lixo. Mais brinquedinho para o Altemar...

Rigoberto pensa em descer até a cozinha, tomar um café, comer alguma coisa, ler um jornal, uma revista, qualquer coisa que o faça esquecer por uns instantes essa porcaria de história inacabável, mas logo ouve o barulho de panelas caindo no piso da cozinha, e resolve que comer os amendoins ao lado do computador dá menos aborrecimentos.

Rigoberto encara o monitor, olha com desânimo para as cento e duas teclas do computador, mas a galinha catatônica no vidro da janela não o deixa concentrar-se em nada. Lá fora o céu começa a escurecer.
Lá vem chuva – pensa – o que vai acontecer com essa galinha ai?

Outro barulho vindo agora da sala faz Rigoberto deixar suas preocupações com a galinha de lado. Altemar ligou a televisão.

Programa de entrevistas, perguntas vazias, respostas pomposas e sem sentido, risadas programadas, intervalos com propagandas imbecis, Altemar absorvia tudo isso como uma esponja absorve água, e depois entornava esses disparates pela casa. Rigoberto mais que tudo, detestava esse hábito medonho de Altemar repetir tudo o que ouvia, principalmente se fosse bobagens.

O tempo passava, e ele passava inutilmente sem produzir nada, sem escrever nada, esgotando o prazo de entrega do texto, as horas correndo como se fossem minutos, os minutos como segundos, Altemar firmemente decidido a por a casa abaixo, o barulho, as galinhas correndo no quintal, Toby ficando rouco de tanto latir, a carijó paralisada de pânico na janela...

Rigoberto então grita:

- Altemar, pode subir.

As escadas rangem com o peso de Altemar, a porta quase cai quando ele a abre, e soltando fumaça pelas fuças, pergunta, enquanto a galinha desmaia e cai para o quintal:

- Então, resolveu escrever histórias de dragão?

Devaneios do Ranzinza Sábado 20 horas e terça 20 horas, Chá das 5 sábados e      quintas 17 horas.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Conheça um pouco mais sobre Carla Cristina Garcia ministrante da oficina cultural “A literatura e a moda: A estranha relação entre as palavras e o corpo”

No Café da Manhã com Poesia: Uma pequena crônica de uma manhã de domingo

Shows do Sampa Crew e Gabriel Corrêa fecham programação do aniversário de Poá