Devaneios do Ranzinza por Roberto Prado




Roberto Prado colabora com o Folhetim Cultural desde o início de 2011, Devaneios do Ranzinza aos sábados e terças feiras ás 20 horas e o Chá das 5 uma vez ao mês no sábado e quinta feira. Roberto Prado já publicou dois livros pela (CBJE) Câmara Brasileira de Jovens Escritores.





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THRILLER


Agitação.

Gente entrando e saindo da sala apinhada. Música alta, mesas cheias de petiscos e bebidas.

Edemeia num canto da sala encara Pedro, sentado no braço da poltrona em que está sentada com Zildinha. Ele coloca uma a uma as uvas rosadas na boca carnuda e sensual da ex namorada – nutre o sonho de tê la de volta um dia, ou mesmo por uma noite,o que vier primeiro - sem se dar conta que é alvo dos olhares tristes da morena encostada  no canto escuro do outro lado.

Zildinha, fútil como sempre foi, é e será, come as frutas enquanto procura por Heliomário, amante recente (na verdade são amantes  dois meses, nove dias e seis horas) que neste momento encontra se à beira da piscina tomando uma “marguerita”[1] (sem limão, sem cointreau, sem sal e sem gelo moído) e pensando se vale a pena continuar com Zildinha, com o “emprego”, e levando essa vida de fugitivo procurado em todo o MERCOSUL..

Começa a tocar uma rumba e quem gosta[2]de músicas caribenhas vai dançar e quem não gosta sai para fumar na rua ou à beira da piscina. Oitenta por cento dos convivas saem...

Heliomário joga seu cigarro na água e resolve dançar. Melhor música ruim que aquela gente, afinal alguém ali poderia reconhecê lo.

Edemeia ao ver Heliomário puxa o para dançar, ele a empurra para o lado e segue para uma mesa cheia de bebidas, ao passar pela poltrona no canto da sala vê, desgostoso, Zildinha sendo alimentada com uvas, ele olha profundamente em seus olhos e discretamente passa a longa unha do dedo polegar da mão direita no pescoço Zildinha engasga e Pedro perde a cor.

A música continua alta e chata, Heliomário bebe, Zildinha engasga, Pedro corre pelas sombras e foge da festa, Edemeia  encostada em seu canto da parede onde Heliomário a jogou, chora.

Pedro na rua, encosta se num poste e sob a luz amarela passa um lenço no rosto enxugando o suor que brota da testa. Assustado ele se pergunta onde já havia visto aquele rosto, espreme os miolos e procura nos arquivos mortos de seu cérebro onde já tinha visto aquele sujeito.

Nunca mais Pedro irá esquecer aquele discreto aviso de morte, nunca mais. Tremendo,queima os dedos três vezes antes de, enfim, conseguir acender o cigarro – pelo lado do filtro.

Heliomário embriagado, começa a procurar por Zildinha, e depois de pouco procurá la a encontra a saindo do toalete.

Ele a pega pelo braço e em seguida segura seu corpo todo que desmaia de puro terror. As mulheres à volta gritam gritinhos mais de afetação que de medo, e levam Zildinha de volta ao toalete esperando que a água em seu rosto a trouxesse de volta à consciência.

Tal expediente realmente funciona e Zildinha recupera se, e ato contínuo, tenta fugir pela pequena janela. Não consegue.

Da porta vem os sons dos chutes de Heliomário – controlado, ele não grita..

As mulheres apavoradas fogem em desabalada carreira ao verem a porta vindo abaixo e deixam Zildinha entregue a própria sorte. Má sorte, má sorte.

Enquanto isso na sala...

Mudam a música, passam a tocar Frank Sinatra, e enquanto Heliomário estrangula Zildinha o “Velho Olhos Azuis” canta “I've Got You Under My Skin”[3]. Ele murmura bem perto de seus ouvidos:

- Essa era – ênfase no era -   a nossa música, lembra?

Zildinha tentando angariar alguma simpatia de Heliomário aproveita o “empuxo” e sacode a cabeça concordando com ele.

I've got you under my skin I've got you deep in the heart of me. So deep in my heart that you're really a part of me. I've got you under my skin – murmura enquanto aperta lentamente o pescoço de Zildinha.

Mas antes do “estalo final” começa o foguetório lá fora e todos correm para ver os fogos de artifício. A voz do velho Sinatra é abafada e tudo se perde no barulho dos rojões, morteiros...

Zildinha entrega os pontos e sabe que o fim se aproxima inexoravelmente. Mas antes de seu último suspiro o celular de Heliomário toca. Ele atende segurando o pescoço de Zildinha com o pé esquerdo e com o pé direito trava a porta quebrada do toalete.

- Alô – diz bruscamente. Segundos depois desliga o aparelho e o guarda no bolso do paletó, apruma se e tirando o pé de cima do pescoço de Zildinha diz:

- Tua sorte é eu ser profissional. Tenho um serviço a completar, quando eu voltar nós continuamos de onde paramos.

Saindo do toalete segue em direção à piscina, perde-se em meio a multidão que pula, grita e dança ao som dos fogos.

Zildinha foge, corre e pula o muro da casa perdendo se na rua. Talvez procure por Pedro (que não tornará a encontrar nunca mais) talvez procure voltar para casa, mas em casa encontrará Heliomário, pensa bem e muda de direção, sumindo se na noite...

Em meio a confusãoum crime será cometido e não encontrão o criminoso, e somente dias mais tarde darão pela falta de Edemeia, que num canto do jardim viu e foi vista por Heliomário.


[1].Ingredientes:
- 3/4 de dose de tequila branca
- 1/3 de dose de cointreau
- 1/3 de dose de suco de limão
Modo de preparo:
Bater todos os ingredientes e servir em taça de coquetel. Crustar a borda do copo usando suco de limão e sal.

[2] Há quem?
[3] (Irving Berlin) [Recorded December 21, 1960, Los Angeles]




Devaneios do Ranzinza ás terças e sábados 20 horas.


Ainda hoje no Folhetim ás 22 horas A Faixa do Poeta das Faixas e Direto do Baú do Raul ás 23 horas.

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