Por que o futebol é pouco presente na literatura brasileira?


"Carlos Alberto", de Rubens Gerchman
“Carlos Alberto”, de Rubens Gerchman
A proximidade da Copa do Mundo e o fato de que publiquei um romance chamado “O drible”conspiram para tornar a pergunta acima a que mais ouço há meses. Tenho dado respostas múltiplas, como acredito ser uma exigência da questão, que não é simples. Este texto é uma tentativa – provavelmente condenada ao fracasso, mas fracassos também podem ser interessantes – de chegar a uma síntese que o bate-pronto das entrevistas não favorece.
Em primeiro lugar é preciso descartar uma tese que encontra razoável apoio e que já vi formulada pelo antropólogo Roberto DaMatta: nossos escritores são elitistas e não admitem se rebaixar a tratar de um tema tão identificado com o povo. O raciocínio me parece furado. Há décadas convivo com um monte de escritores e jornalistas apaixonados por futebol, loucos pelo tema, e se essa fixação não se converteu em um punhado de obras memoráveis acho mais lúcido procurar a razão no oposto do esnobismo – um certo sentimento de intimidação, talvez, diante da gigantesca dimensão popular daquilo que velhos narradores de rádio chamavam de “violento esporte bretão”.

Restam outras explicações. Acredito que uma das mais consistentes seja o fato de que o futebol – ou qualquer esporte, mas no Brasil essas palavras se aproximam de ser sinônimas – são narrativas fechadas, acabadas, que já contêm todos os elementos do drama, da tragédia e da comédia. É fácil entender como essa autossuficiência pode ser desestimulante para o ficcionista. Costumo dizer (impossível não repetir certas tiradas, lamento) que isso explicaria não só a relativa ausência do futebol na literatura brasileira, mas também a da Fórmula-1 na ficção italiana e a do sumô nas letras japonesas.
A autossuficiência narrativa se manifesta entre nós de diversas formas. A mais evidente é a exuberante mistura de história e mitologia que cerca o futebol, cevada por cronistas esportivos e por torcedores com a vocação enciclopédica de um Diderot – e estes, ninguém deve duvidar, são milhões. É difícil encontrar brechas nesse mundo por onde infiltrar as mentiras da ficção: invente, por exemplo, um craque chamado Pitomba, que brilhou no Flamengo de Zico e Adílio, e prepare-se para cair no ridículo.
Para complicar um pouco mais a vida do romancista, a crônica de futebol, que teve seu auge entre os anos 1950 e 70, soube injetar nesse universo doses cavalares de boa literatura. Aproveitando-se de que a melhor crônica brasileira já nasceu equilibrada entre a arte e o jornalismo, Nelson Rodrigues, Paulo Mendes Campos e outros extraíram dos fatos – e das meias verdades – produzidos pelo dia a dia do esporte efeitos dramáticos, cômicos, épicos e líricos que tornavam obsoleta a literatura imaginativa.
Como competir com a história de Heleno de Freitas, o astro bonitão que morreu feio e louco? Quem acreditaria num cracaço aleijado como Garrincha se ele fosse fictício? Quem perdoaria o escritor que bolasse um enredo piegas como o do menino negro e pobre do interior de São Paulo – digamos que ele se chamasse Pelé – que promete ganhar a Copa do Mundo ao ver o pai chorando com a derrota de 1950 e oito anos depois, rapazote ainda, ganha mesmo?
A tudo isso, costumo acrescentar uma ponderação que busca pôr em perspectiva a suposta dívida da literatura brasileira com o futebol: é mecanicista imaginar que todos os temas culturalmente relevantes de uma sociedade devam se traduzir de forma automática em sua ficção, e que, se não o fazem, os ficcionistas são os culpados. O carnaval, tão importante quanto o futebol para a compreensão do Brasil, também não tem presença brilhante em nossos romances.
Pode-se argumentar que o parágrafo anterior beira o sofisma, que apenas reformula a pergunta inicial e a devolve intacta ao autor. Acho que não é o caso. Reconhecer a complexidade das relações entre realidade e ficção leva a questão a transcender os limites da literatura e invadir um campo mais vasto e nebuloso: o dos processos de autoconhecimento que uma nação ainda jovem precisa de tempo para amadurecer. O Brasil é uma obra em progresso – embora às vezes, é verdade, pareça uma obra em permanente atraso.
No caso da literatura, é importante levar em conta que esse trabalho se alimenta tanto da realidade quanto da própria literatura. Livros, muita gente já disse, conversam com outros livros. “O drible” não existiria se o cenário que a pergunta-título deste artigo pinta como pouco mais que um deserto não fosse povoado de textos. Alguns deles são de não-ficção, como o monumental “O negro no futebol brasileiro”, de Mario Filho. Outros são puros exercícios de imaginação, como o notável conto No último minuto, de Sérgio Sant’Anna – do livro “Notas de Manfredo Rangel, repórter (a respeito de Kramer)”, de 1973 –, que quando li pela primeira vez, aos vinte anos, me deixou com uma vontade danada de um dia escrever sobre futebol.
Não duvido que, em pouco tempo, a pergunta ali de cima tenha virado peça de museu.

TodoProsa Veja.com Sérgio Rodrigues

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