Devaneios do Ranzinza por Roberto Prado


Roberto Prado, 49 anos Santos, São Paulo.

Publicou dois livros, é funcionário público. Talentoso escritor, irá escrever aos sábados 10 horas da manhã, no Folhetim Cultural com reprise nas terças ás 20 horas. Pelo Folhetim ainda escreverá uma vez ao mês no Chá das 5.
Blog do Roberto Prado: http://blogdonemesis.blogspot.com/
E-mail do Folhetim Cultural: folhetimcultural@hotmail.com
E-mail: rpjbarbosa@fazenda.sp.gov.br


Anteontem à noite
Escutou um som rascante vindo da porta, olhou e viu um bilhete ser empurrado por baixo dela. Correu para pegar, abriu a porta mas já era tarde demais, a pessoa já havia sumido.
Com o coração disparado abriu o envelope, e mordendo o lábio inferior leu: Eu estava lá na noite retrasada. Vi tudo. Logo entrarei em contato. Nem pense em fugir, sei como encontrá-lo em qualquer lugar.
Sentou-se na poltrona e espremeu os miolos para lembrar-se o que havia feito na noite retrasa. Correu a ver a sua agenda, nada. No seu diário (onde que um homem mantém um diário hoje em dia?), nada.
Recorreu ao orkut, nada.
- Meu Deus o que foi que eu fiz?
Pensou em ligar para Renata. Mas logo deixou a idéia de lado, se havia feito alguma coisa errada, não foi com ela, e se era coisa errada seria bom ela não saber.
Começou a roer as unhas, acendeu um cigarro, e foi à cozinha comer amendoins e conferir a folhinha. Nada estava marcado.
- O que foi que eu fiz??
Foi ao banheiro chorar.
Chorou até ficar com o rosto inchado, os olhos vermelhos e o nariz escorrendo. Voltou à sala, encheu um copo com uísque e sentou-se no sofá para reler o bilhete outra vez...
Revirou o guarda-roupa, olhou os bolsos da calça, da camisa e do blazer, nada. Pensava o que dizer à Renata caso algo lhe acontecesse. Se ele morresse? O que ela iria pensar? Envolvido em drogas? Crimes? Prostituição? Espionagem? Tráfico de escravas brancas para ao Oriente Médio? Pedofilia? Necrofilia?
- Não!! - gritou.
Começava a delirar, deixara-se levar...
Olhava a janela, já considerando atirar-se dela, quando toca a campainha.
 Assustou-se.
Correu a atender a porta. Girou a chave, puxou os três trincos, o pega-ladrão e abriu-a, e um tipo suspeito, de capote, chapéu, óculos escuros e guarda-chuva encarava-o.
Ele tremeu, em sua cabeça passou o filme de sua vida. Reviu toda a sua infância, juventude, adolescência, a toda a vida adulta até a noite de anteontem, e nada havia ali de excepcional.
O homem levantou o óculos e perguntou:
- Hoje você recebeu uma carta?
- Sim - tartamudeou tremendo.
- Onde ela está? - Perguntou com voz firme, estendendo a mão.
Ele pensando que seria estrangulado, procurou proteger o pescoço, e correu para dentro do apartamento.
O sujeito entrou na sala, fechou a porta, girou a chave e puxou de volta os três trincos e o pega-ladrão. Seguiu em direção ao pobre coitado que chorava baixinho no canto do sofá.
- Onde está carta - perguntou com voz soturna e ameaçadora.
- Aaaaaaqui! - tremia, chorava, os olhos saltando das órbitas, urinando-se.
O tipo puxou-a bruscamente, Pôs no bolso do capote, virou-se em direção à porta, onde teria de girar a chave, puxar os três trincos e o pega-ladrão, quando por fim a escancarou, voltou-se para trás e disse:
- Essa carta foi posta na sua porta por engano, era para o seu vizinho aqui do lado. Uma palavra e você é um homem morto. - Virou-se e foi-se embora.
Em menos de uma hora já estava com o caminhão de mudança na porta do prédio. Mudou-se e não deixou endereço para ninguém.
Nem Renata sabe que fim ele levou.

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