Montagem de "Rigoletto" opta por sexo mais explícito

CHICO FELITTI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA


"Esse casal está parecendo mais de novela do que de ópera!", disse a aposentada Marina Devolo, 74, no entreatos de "Rigoletto", no Municipal paulistano, na quarta passada.
Era a segunda vez de Devolo, que conhece as letras dessa ópera italiana de cor, a via no Municipal. A primeira foi em 1999 e, diz ela, "não tinha lambeção, como nesses beijos".
Ela e as quatro amigas que acompanhavam disseram, antes do terceiro e último ato, cogitar deixar o plateia. Mas desistiram. "Não precisava a apelar!", disse após o fim do espetáculo Cristina Mutari, 77, amiga de Devolo.
A montagem de Felipe Hirsch que comemorou os cem anos do teatro tem de fato partes mais picantes. Os casais se beijam de língua. A saia da donzela deflorada se tinge de vermelho-sangue.
"É uma leitura possível de 'Rigoletto'. Mas não muito comum, com elementos explícitos", diz Mario Videira, professor especializado em ópera da USP. "Mas o sexo existe lá. Afinal, um personagem dos principais, o Duque, é um libertino."
Videira lembra que até Luciano Pavarotti "fazia sexo" no palco, oculto pelo dossel de uma cama no palco, quando fazendo um "Rigoletto" na década de 1980.
Preliminares também existem nos palcos eruditos. "Mas são cênicos, geralmente", explica Videira.
Irineu Franco Perpetuo, crítico da Folha, lembra de uma montagem de "Romeu e Julieta" em que o casal enamorado trocava 29 beijos na boca (de cena). Acabaram por se casar na vida real.
O choque que "Rigoletto" causou ao ser lançada, em 1851, foi mais político que erótico, diz o historiador e estudioso de ópera Carlos Etalam "A elite veneziana é ironizada nas letras, por isso muitos ricos não gostaram. Mas foi uma obra de muito sucesso de Verdi."
Sucesso tamanho que segue lotando teatros como o Municipal até hoje. "Há um público que acha que as apresentações têm de ser sutis."
"Eles se esquecem que, dois séculos atrás, a ópera não passava para o povo da Itália de um tipo de diversão. Quase uma novela."

Fonte: Folha.com Ilustrada

Postagem: Magno Oliveira

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