"Xingu" recupera história dos Villas Bôas com superprodução


Por pouco a estreia de "Xingu", que chega aos cinemas nesta sexta-feira (06), não coincidiu com o cinquentenário do parque indígena, comemorado em 2011. Mas isso não impede que o assunto seja colocado em pauta, e é justamente esse o objetivo de se recuperar a história dos irmãos Villas Bôas nessas alturas. Afinal de contas, não é todo dia que se vê a questão indígena ganhar destaque no circuito exibidor, ainda mais com status de superprodução – o filme custou R$ 14 milhões, sem contar o investimento em marketing.

Foto: Divulgação
João Miguel, Caio Blat e Felipe Camargo, os aventureiros irmãos Villas Bôas em "Xingu"
É evidente o esforço de tornar o assunto atrativo para o grande público, por isso o roteiro escrito a partir do livro "A Marcha para o Oeste", as memórias de Claudio e Orlando Villas Bôas, não economiza no didatismo e toma certas liberdades – habituais, aliás – com os fatos para romantizar a aventura pelo interior do país e conferir certo ar épico à empreitada.
"Xingu" apresenta os irmãos Claudio (João Miguel) e Leonardo (Caio Blat, o caçula) fazendo-se passar por analfabetos para entrar na expedição Roncador-Xingu, no início da década de 1940, que tinha por objetivo desbravar o desconhecido centro-oeste brasileiro. "Estudamos em bons colégios, tínhamos bons empregos, mas trocamos tudo pela vida na mata", explica Claudio, narrador e força-motriz da história. "Liberdade mesmo, só no sertão."

Foto: Divulgação
Primeiro contato com índios no rio Xingu
Pouco depois o irmão mais velho, Orlando (Felipe Camargo), se junta ao grupo e não demora para eles se tornarem líderes de um destacamento, seguindo o curso do rio Xingu. É aí que o trio encontra os primeiros índios, que até então nunca haviam visto o homem branco.
O diretor Cao Hamburger ("O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias") filma de perto a aproximação entre as duas partes, um misto de curiosidade, fascinação e atordoamento (mérito do desenho de som) por entrar em contato com uma cultura completamente diferente.
A estreita ligação que os Villas Bôas desenvolvem com os indígenas cresce de maneira natural e eles se vêem, mesmo sem preparo algum, como os únicos interessados em defendê-los e preservar seu habitat – para o governo e os fazendeiros da região, aquelas terras eram "boas para criar gado", e só.
A iniciativa culminaria nas negociações de bastidores para a criação do parque, sancionado no início do governo Jânio Quadros. Foi apenas parte da contribuição dos irmãos à política indígena do país, nas frentes institucional (Funai), acadêmica e até moral, caso da preocupação em manter certas tribos isoladas de qualquer contato externo – "tem alguma coisa neles que morre para sempre", comenta Claudio, ao se referir à aproximação com o homem branco.
Não que eles sejam heróis infalíveis, um dos méritos de "Xingu". O filme não esconde atitudes questionáveis do trio na mata, em especial de Leonardo, mas ninguém ali é perfeito: Claudio chega a convencer índios a se mudar para o parque na base da bala, enquanto Orlando precisa entrar no jogo da política para conseguir benefícios. Esconder os erros só enfraqueceria a história.
Com esse panorama amplo, "Xingu" se mostra um apanhado justo da trajetória dos Villas Bôas e do amadurecimento da questão dos índios no país, que andaram em paralelo. O orçamento milionário se revela no esmero na reconstituição de época, nos detalhes das aldeias, nas dezenas de atores indígenas, na fotografia belíssima de Adriano Goldman e em muitas tomadas aéreas.
Um trabalho técnico de qualidade alta – que infelizmente ainda não virou padrão no audiovisual brasileiro – e uma mensagem clara de engajamento ambiental. No fundo, "Xingu" quer dizer que a criação do parque foi uma grande vitória de uma batalha que segue até hoje. Em tempos de Belo Monte, bom ver essa discussão chegando de maneira tão bem acabada nas telas do país.

XINGU (2012) - Trailer Oficial











Vídeo: Youtube
Fonte: Portal IG
Postagem: Magno Oliveira
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