Devaneios do Ranzinza por Roberto Prado


Roberto Prado, 49 anos Santos, São Paulo.



Publicou dois livros, é funcionário público e todo mês fará sua participação no Chá das 5 aqui no Folhetim. E todos os sábados ás 11 horas terá esta coluna especial.


HOJE DIA INTERNACIONAL PARA DEIXAR O CARRO EM CASA
(ou, seja besta e –como sempre - faça a sua parte mais uma vez)


Agora me responda você que se matou para comprar o dito carro, pagou (ou ainda está pagando) o preço absurdo de um, vai deixá-lo em casa, se apertar num ônibus, que fatalmente estará atrasado, cheio “até o ladrão”, com um motorista que pensa que vai buscar a mãe na zona de tanto que corre, ou que, por achar que a velha já está tranqüila e trabalhando, vai devagar sem se importar com seu horário de entrar no serviço?

Se você estiver bem localizado no coletivo (vamos torcer para também não estar chovendo...) – entenda, apertado lá nos fundos, encostado à porta de saída – irá perder o espetáculo de humilhação sem tamanho que é ver uma idosa esconder-se atrás de alguém mais jovem, e entendam por jovem qualquer um que não aparente mais de cinqüenta anos, pois se esse “jovem” não fizer um sinal de parada, o ônibus ignorará o velho/velha no ponto quer esteja fazendo sol ou chovendo a cântaros...

Vamos lá, faça a sua parte, afinal você não faz mais nada mesmo! Não está achando que só porque paga uma meia-dúzia de impostoszinhos acha que já fez mais que a sua parte...

Deixe o carro em casa, deixe de tomar banho para poupar a água do planeta, deixe de respirar, assim você, sim você mesmo seu inconseqüente, deixa de depositar sua taxa de CO² na atmosfera.

Ontem foi dia da miserável da Árvore.

Criatura mesquinha que deveria ser banida da face da terra. Faz muito bem certo vereador – um herói aos olhos de seus pares - que tem urticárias cada vez que vê uma delas pela frente.

Uma praga que solta folhas nas ruas, arrebenta calçadas, faz pessoas honestas e boas torcerem seus delicados pezinhos em suas malditas raízes. De todas essas pragas, tem aquelas que, Santa-desfaçatez, lançam seus frutos sobre nós, sobre nossos carros, casas, sujam e mancham nossas calçadas. As autoridades estão certas – aliás, me mostrem quando elas estão erradas – em derrubarem árvores, asfaltar ruas, concretar tudo o que vêem pela frente.

Mas como sou um ser humano desprezível, nojento, egoísta, fdp mesmo, vim trabalhar de carro, meu carro zero – que pagarei em meses sem fim, mais IPVAs, combustíveis adulterados (álcool demais na gasolina, água demais no álcool), Pedágios, Flanelinhas – e de dentro dele, ouvindo boa música, vi ônibus e mais ônibus lotados, sujos, soltando fumaça preta – ai de meu carro se não passar na Inspeção Veicular Obrigatória... – e sorrindo cinicamente (eu não presto mesmo!) comentei com minha mulher:

- Deus estará vendo o sacrifício desses bons cidadãos em prol do Planeta Terra?

Não fosse uma pequena e dolorosa inflamação em meus pulmões, juro que teria acendido um cigarro...

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