Devaneios do Ranzinza por Roberto Prado


Roberto Prado, 49 anos Santos, São Paulo.

Publicou dois livros, é funcionário público. Talentoso escritor, irá escrever aos sábados 10 horas da manhã, no Folhetim Cultural com reprise nas terças ás 20 horas. Pelo Folhetim ainda escreverá uma vez ao mês no Chá das 5.
Blog do Roberto Prado: http://blogdonemesis.blogspot.com/
E-mail do Folhetim Cultural: folhetimcultural@hotmail.com
E-mail: rpjbarbosa@fazenda.sp.gov.br

Agentesevêporaí.

- _A gente se vê por ai! - Deu um sorriso, lindo, frio e fechou a porta sem dar um beijinho sequer em rosto, deixando como lembrança somente o seu perfume.
Parado com a cara na porta, ele sentiu que era o fim, fim de começo, começo sem porvir, fim,” the end”. Aspirou o perfume, tentou guardá-lo o maior tempo possível.

Trinta e cinco segundos, ainda assim amparado pela parede.

- A gente se vê por ai - repetiu baixinho, como que para assimilar o pé na bunda. - A gente se vê por aí.

Apertou o botão de chamada do elevador, mas resolveu descer os dez andares.
O toc-toc dos sapatos fazia eco nas paredes - Agentesevêporaíagentesevêporaiagentesevêporaíagentesevêporai - repetia, mascando as palavras como se fosse um chiclete de hortelã.

Seu sabor predileto sempre foi tutti-frutti.

No sétimo andar, as luzes estavam queimadas, acendeu o isqueiro para iluminar e aproveitou para fumar. De olhos fechados aspirou a fumaça, com um prazer quase sexual e pensou alto:

- O único prazer dessa noite.

Expirou a fumaça junto com um suspiro. Na segunda tragada, engasgou-se, tossiu e tossindo repetiu:

- Agentesevêporaíagentesevêporai.

Sem fôlego, cansado e frustrado chegou ao térreo. Carrancudo, deu boa noite ao porteiro, e saiu para rua com a certeza que o baiano estava rindo da sua cara.

- ”Agente se vê por ai” deve estar tatuado na minha testa!

Seguiu pela rua escura, uma brisa fresca anunciava uma chuva para logo. Foi andando em direção à sua casa.

- Agentesevêporaíagentesevêporaiagentesevêporaíagentesevêporai...

Quatro quarteirões depois começou um chuvisco que logo engrossou, encheu as ruas, encharcou a roupa, os sapatos, a carteira com o dinheiro e os documentos do carro...

- ...os documentos do carro! - completa o pensamento com palavras. Grita um palavrão para a mulher e corre de volta para o prédio dela, onde na esquina está estacionado o seu carro.

- Agentesevêporaíagentesevêporaiagentesevêporaíagentesevêporaiagentesevêporaíagentesevêporai.

Com esse mantra ele volta para casa e no caminho ainda se perde duas vezes.

- Agentesevêporaíagentesevêporai, parece até refrão de música brega, agentesevêporaíagentesevêporai...

Ao chegar, pingando, deixando poças d’agua pelo chão, sujando o tapete branco, corre para a secretária eletrônica, que pisca, na esperança de uma mensagem dela.

Plantado de frente à máquina constata tristemente que era a mãe reclamando das varizes, pela terceira vez essa semana.

A poça d’água aumentou ainda mais com suas lágrimas...

Comentários

  1. MUITO MANEIRO!

    E nem é sempre que se tem a mãe para reclamar, mas a paixão leva à confusão.

    Parabéns!

    Beijos

    Mirze

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Obrigado por interagir conosco!

Postagens mais visitadas deste blog

Conheça um pouco mais sobre Carla Cristina Garcia ministrante da oficina cultural “A literatura e a moda: A estranha relação entre as palavras e o corpo”

REUNIÃO DO CONSELHO DE CULTURA DE POÁ SERÁ DIA 19

No Café da Manhã com Poesia: Uma pequena crônica de uma manhã de domingo